![]() |
| Foto de Alain Audet de Saint-David, sob CC0 Public Domain |
Dr. Ricardo,
Desculpe utilizar o meio escrito para conversar contigo. Sei que és um homem ocupado. Acho que, se não encontrares tempo para ler, considerando os longos trajetos que fazes entre um trabalho e outro, podes ler enquanto dirige. O código de trânsito não fala absolutamente nada sobre isso ser proibido, então, é uma ideia.
Vejo que parte dos teus pacientes estão recebendo alta e, ao contrário do que seria óbvio, não me sinto a vontade de estar me adaptando à medicação. Sei que terei que ir embora também quando, na tua concepção, isso acontecer de fato. Porém não me sinto preparada.
Eu era uma pessoa que levava uma vida normal, cercada de pessoas que tinham como principal habilidade esconder suas dores e frustrações. Quando vim para a clínica, não falei absolutamente nada pra ninguém. Nem minha melhor amiga, Carol, soube. Minha mãe, quando vem me visitar, diz que diversas pessoas a abordam querendo notícias minhas. Pessoas que não me veem no Facebook. No meu emprego, não falei para nenhum colega. As únicas pessoas que ficaram sabendo são as que, verdadeiramente, deveriam saber: a menina do Recursos Humanos e o pessoal que gerencia o plano de saúde. Só.
Isso porque tenho vergonha de estar aqui. Tenho vergonha de não conseguir fingir ter a habilidade de lidar com o que lá fora chamam de adversidade do dia a dia e aqui tu convencionou chamar de "doença".
Na sociedade na qual eu vivo, se a pessoa faz terapia é desajustada. Se vai a um psiquiatra, é louca e, se ficou internada em uma clínica, digna de ser evitada. Alguém completamente inconstante, insegura, frágil, inconsequente e mentalmente não-confiável.
Não é coisa da minha imaginação. Foi exatamente dessa forma que eu fui vista quando vim parar aqui da primeira vez. Se antes eu trabalhava cerca de dez horas por dia, dopada por doses letais de Rivotril, quando voltei, meus colegas e chefes me ignoraram. Tinham medo de mim. Medo de não saber lidar com a minha "doença", sendo que a única que deveria fazer isso era eu.
Eu passava longas horas do meu dia sem fazer absolutamente nada. As pessoas se sentiam na obrigação de compensar a pena que sentiam de mim com sorrisos falsos. Eu não era contrariada. Não era incluída. Não era parte de nada. Não sabiam o que fazer com a "louca que voltou da clínica", então, não faziam nada. Fui jogada no meio do nada e isso não foi legal.
Me sinto melhor. Bem melhor do que quando entrei aqui. Tive a sorte de ter você como médico novamente. Uma sorte que eu mesma busquei. Sabia que, no mundo todo, talvez tu serias a única pessoa que me entenderia. Não errei.
(Trecho do Livro "De hoje não passa!" - Capítulo IX - A Carta de Elisa)
O quanto há de verdade nessas linhas
(Ou o preconceito relacionado a tratamento psiquiátricos)
![]() |
| Post da Associação Brasileira de Psiquiatria - Psicofobia é crime. |
Quando você já viveu algo, fica mais fácil falar. Nada impede que você escreva sobre viagens no espaço mesmo que nunca tenha entrado em um avião. Mas ter vivido o lugar, sentido na pele o que é cada palavra que você escreve torna a coisa toda absurdamente diferente.
Essa carta que está no livro de fato existiu. Parte dela. O primeiro parágrafo. Lembro que, quando eu estava na clínica eu escrevi para o Ricardo "real", mas costumava conversar muito com ela sobre o medo que eu tinha do lugar que denominei como "lá fora". Ele, num gesto de generosidade, me disse: "então, quando tu estiveres preparada, tu é quem vai me dar alta". E foi o que aconteceu.
Passei meus dias imaginando as pessoas me julgando, com códigos furtivos, perto da mesa do café para falar que eu havia sido internada.
De fato, não errei. E, pela primeira vez, estar certa me deixou muito triste.
Muitos colegas de trabalho me receberam muito bem. Porém, parte deles- e era infelizmente a maioria - me olhava de canto. Alguns, com curiosidade. Outros, tentando me evitar, da mesma forma que se evita andar com os losers do colégio para que ninguém ache que você é mais um deles.
Isso tinha um nome, mas eu não sabia. Ironicamente, na mesma época em que eu estava sofrendo por isso, tramitava um movimento legal rolando no Senado que transformava esse preconceito velado - ou escancarado - aliado ao meu mal-estar em uma única palavra: PSICOFOBIA. E, a partir de 2012, começava a ser visto não como "simples discriminação", mas como algo passível de ser considerado crime.
Desenhando:
Em 2014 o senador Paulo Davim (PV-RN) deu seus dois centavos ao projeto de Lei do Senado que altera o Código Civil Brasileiro ao apresentar uma emenda de sua autoria sobre preconceito praticados contra a pessoa com transtornos ou deficiência mental. que tramita no Senado. embora ainda tramite por lá, a medida que o tempo passa, questões contra a psicofobia ganha mais força na nossa sociedade.
“Se alguém é acometido por transtorno mental e tem indicação de buscar auxílio profissional de psiquiatra ou psicólogo, sofre toda sorte de discriminação, o que afasta ou retarda seu contato com o sistema de saúde. O resultado de tudo isso é o reforço do preconceito contra as pessoas com doença mental e a deterioração de seu quadro clínico” (Paulo Davim)
Famosos, encorajados pela Associação Brasileira de Psiquiatria, tentam sensibilizar a sociedade por meio da campanha contra a psicofobia, um mal que vaga por entre nós silencioso, mas que fere e mata.
O livro fala sobre isso também. A personagem Elisa absorveu todos os meus medos, dores, frustrações daquela época. O preconceito que é tão forte que transborda para dentro de você. Você se torna um deles.
No capítulo III - Incondicionalmente, Elisa mostra o quanto esse preconceito já estava em seus poros e já inunda sua definição de tratamento, o que, obviamente, só a prejudica.
- Você não é obrigada a nada, mas antes de negar qualquer coisa, deve saber que depressão é doença. É isso que você tem que ter bem claro na sua cabeça. E você é uma pessoa que, no momento, está doente. Eu sou médico. Minha função é te ajudar.
- Se eu quiser ajuda. Mas eu não quero. Estou achando tudo isso uma perda de tempo.
- O que é uma perda de tempo?
- Eu estar aqui, tirando o lugar de uma outra pessoa que realmente quer se tratar. Estar aqui pela segunda vez, em menos de um ano, ser taxada de depressiva, tomar remédios. Me diz, pra quê? É isso que eu não entendo - ela voltou a fitar os olhos do médico carregando o mesmo ar de serenidade - PRA QUÊ?
- Para que você se sinta bem.
(Trecho do livro "De hoje não passa!" - Capitulo III - Incondicionalmente)
A psicofobia existe. Foi ela que fez que eu escondesse por tanto tempo esse livro e a motivação para escrevê-lo. Hoje, dizer que não me importo com as reações ou que não preocupo com elas é faltar com a verdade. Sim, eu me importo. Sim, eu me preocupo e, o que é pior: sim, esse preconceito, quando manifestado, me atinge. Mas, no meu caso, tentar virar esse jogo não é uma questão altruísta e social. É uma questão de tentar me libertar disso. Dessa forma de ver o mundo e a mim mesma.
O trabalho do Ricardo "real", o médico que me tratou na clínica, é lindo. Me discriminando, discrimina-se o trabalho dele também. E esse ciclo de injustiça e sofrimento é tão grande que quem discrimina não consegue enxergar as verdadeiras consequências.
Escrever uma novela não ajuda em nada essa luta, mas quem sabe, num futuro próximo, as artes se rebelem e façam um levante, todas juntas, no mesmo dia, contra a psicofobia, ãh?







Olá. Fiz questão de ler tudinho até o fim.
ResponderExcluirTenho muito orgulho de você e concordo com tudo o que você falou sobre a psicofobia porque sei na pele como acontece essa discriminação. Quando tive depressão e precisei de internação, muitos parentes passaram a me evitar, amigos mudaram comigo, as pessoas que nunca passaram por isso e não conseguem se colocar no lugar do outro geralmente não entendem.
Há muita falta de informação, muito preconceito, mas é claro que aos poucos isso está mudando.
A iniciativa de abordar esse assunto que tem tudo a ver com o livro é louvável porque através dela, muitas pessoas vão poder se informar e também ler um livro muito bonito também pela história por trás da própria história. Você merece tudo de bom, desejo que esse blog seja muito próspero e que você continue escrevendo.
Antes de me despedir, digo que o seu trabalho é muito bonito e o trabalho do Ricardo também.
Beijos de luz e uma ótima noite.
Menina, que comentário lindo. Me emocionei. Embora ele expresse a triste realidade das pessoas que tiveram coragem de buscar ajuda. A sociedade finge que está preparada para apoiar a própria sociedade sem rótulos. Cabe a nós mostrarmos no dia a dia que valeu a pena cada minuto investido na própria saúde. Esse médico, Ricardo, o real, que inspirou o livro, é um iluminado. Ele me fez ver que o que tenho é doença e, como qualquer outra, merece ser tratada com dignidade. Acho que os psiquiatras são os mais sensíveis de todas as especialidades. Os bons. Precisam ser. E os que tem o dom prestam um serviço que vai além do paciente. Por exemplo: esse texto, essa percepção só foi possível por conta da dedicação com a qual ele me tratou.
ExcluirSegue por ai que seguimos por aqui, querida. Adorei seu comentário.