(ou “A vida foi linda e justa e, nesse momento, eu não soube o que fazer")
Em outubro deste ano, nos panfletos com a programação e no enorme banner localizado no fundo do palco da Feira do Livro da minha cidade, logo após a palavra “patrono” se lia o nome dele: Charles Kiefer. Eu vibrei como presidente de torcida organizada em época de campeonato. Fiquei feliz. De verdade. Mas sabia, de antemão, que eu não sou do tipo de pessoa “casa cheia”, daquelas que mentalmente gritariam “Charles Kiefer, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver!”. E nesse ponto dou graças a Deus. Por quê? Porque sou tímida.
Às vezes penso que comecei a escrever por esse motivo. As pessoas não acreditam mas eu sou tímida. Se precisar, falo para plateias, sem muita delonga, exponho minhas opiniões, numa boa, afinal, é isso que mantém parte da minha sanidade mental, mas sou tímida. Infantilmente tímida. Do tipo que fica naquela do "falo com a pessoa ou não falo?" e, quando decido falar, ela já está, no mínimo, a uns 12 quilômetros dali. Quando vi o Kiefer pela primeira vez não foi diferente.
Abre parenteses: Para quem passou as últimas três décadas procurando água em Marte, digo que Charles Kiefer é um dos maiores nomes da literatura gaúcha. Entenda por “maiores” como grande mesmo. E não sou eu quem digo. O cara escreveu mais de 30 obras e, a parte que eu acho mais bacana nessa história: repassa a experiência que tem em uma das mais respeitadas oficinas literárias do país. Um escritor que forma escritores e, consequentemente, novos leitores. Ganhador de prêmios, recebedor de homenagens, professor universitário, mestre em Cabalah... enfim! É o cara dos carinhas. Fecha parenteses.
A primeira vez que ele aportou no evento foi na quarta-feira à noite. Chegou bem antes da hora marcada o que permitiu que ele desse uma volta pelo local acompanhado da família enquanto comia aqueles sorvetes de iogurte. Um cara simples, de sorriso fácil, olhar risonho. Eu, de dentro de um dos estandes, apenas o observava. Quieta. Precisava de um tempo para me sentir relevante a ponto de trocar uma ideia, o que, obviamente, naquele dia, não aconteceu.
No dia seguinte havia uma outra atividade com ele. Uma oficina que acabou virando um bate-papo sobre literatura. Eu o olhava como quem olha para uma obra de arte. Isso porque, não é preciso ser gênio para saber que se é contemporâneo de algo histórico. Acontece quando você vê Luis Fernando Veríssimo, por exemplo, Assis Brasil e também Charles Kiefer. A mesma sensação de quem tem histórias que incluem situações corriqueiras com nomes como Mário Quintana e Clarice Lispector. Eu sabia que ver ele ali me colocava no seleto grupo de pessoas que teriam uma história para contar. Só não sabia que no mesmo dia.
O centro da conversa era o livro "Para ser escritor" (ed. Leya, 2010), livro sobre o processo de escrita criativa que compila parte da experiência que ele passa nas oficinas. Lá pelas tantas ele me olha, numa sala com umas 20 pessoas e diz (atenção porque esta informação é importante: do nada):
- Eu vou te dar esse meu livro.
Poderia ser apenas um gesto gentil caso, no dia anterior, eu tivesse me aproximado dele e falado que procurei o livro por meses em livrarias físicas, sem sucesso. MESES. Que baixei em PDF (e sem necessidade, confessei que li o pirata) e li e ouvi por meio de um aplicativo maravilhoso, durante toda a minha semana de férias em Santa Catarina. Que eu pentelhei os livreiros para trazerem o livro para a feira e que, por questões burocráticas com a editora, nenhum conseguiu.
Poderia ser normal se ele soubesse que eu havia saído da palestra dele, no dia anterior, arrasada por não consegui ficar até o final. Que não ousei chegar perto dele por ser uma abobada que se esconde por trás da timidez para não se mostrar para o mundo.
Poderia. Mas foi mais especial porque ele não sabia de absolutamente nada disso. Na realidade o que ele me deu foi mais que um simples livro. Queria achar a combinação de metáforas certas para explicar o que isso significou naquele dia. Mas deixa assim. Não vou conseguir versar da forma como a ocasião merece. Não hoje.
Às vezes as coisas acontecem de maneira inesperada. Não posso dizer que eu não goste disso. Apenas que eu absurdamente nunca sei o que fazer quando a vida, em raros momentos, se torna linda e justa ao mesmo tempo.






Visualizei todas as cenas (again), só que agora com trilha sonora. É isso que a tua escrita poética me provoca. *-*
ResponderExcluirE o que fazer nesses momentos? Aceita que dói menos....kkkkk. São presentes...da vida! ^.^
Acho que o fato de, pela primeira vez, expor publicamente fragilidades que só alguns amigos mais próximos conheciam faz com que o texto tome outra vida, outra direção, de tudo o que já fiz. Nem é talento. É coincidência :)
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