Bom, eu nunca me atreveria a dizer que tenho um livro. Mesmo que o Wattpad, plataforma na qual publiquei a história, chame os trabalhos de "obras" eu jamais me atreveria a chamar os meus escritos dessa forma. Não ainda. Então, eu tenho escritos, que podem ser lidos aqui.
Escrever vai além de construir frases que contem um história. Escrever requer toda uma bagagem, uma preparação e, durante o processo, um aprimoramento que descobri - a duras penas - que não é nada fácil.
Eu sempre escrevi histórias. Meu pai tinha uma máquina de escrever, a Olivetti. Uma das melhores. Quando ele morreu aos 37 anos, eu, aos 11, herdei a máquina. Ninguém disse que era minha, mas como eu era a única que despertou um carinho por ela, foi uma seleção natural.
Sempre tive diários, embora só escrevesse quando estava prestes a iniciar uma "operação verão", "operação fulano", com planos mirabolantes para mudar radicalmente meu visual e assim conquistar o mundo. Ou deprimida. Sempre escrevi entrevistas fictícias mesmo antes de ser jornalista. Histórias curtas e inacabadas. O Wattpad apenas me ajudou a perder o medo de dizer alguma coisa sobre essas coisas todas.
Tá, mas por que escrever um livro?
Em 2012, depois de vencer a vergonha social, fui para uma clínica. O diagnóstico: depressão. Não era algo do qual eu deveria me envergonhar, afinal, é uma doença que pode acometer qualquer pessoa, certo? Mais ou menos. Até a parte da "doença" e "qualquer pessoa", OK. O problema é o preconceito e aliado ao desconhecimento das pessoas sobre o assunto. Isso realmente te incapacita. Te torna um ser com três cabeças. Uma aberração.
Lembro que quando me foi recomendado a clínica, tinha medo de contar pra minha mãe. Pensava que ela não iria entender o que era depressão. Que iria se culpar ou, o que é pior, me julgar. Pensei que seria uma desculpa para que ela dissesse que tudo o que eu fiz foi "inventar moda" e que não esperava nada de mim. Mas eu estava enganada. E pela primeira vez, estar errada me fez feliz.
Ela foi a primeira a achar normal eu ir para uma clínica me tratar. Depois ela me contou que eu estava estranhamente insuportável e, a partir daquelas percepções, acreditou que eu estivesse verdadeiramente doente. Ela achou normal. Eu não.
Mesmo assim, resolvi ir. Afinal, sendo bem sincera, se quisesse tentar sobreviver (e o ser humano é um sobrevivente crônico) eu teria que ir para lá. Quando eu liguei para a clínica já estava disposta a desistir caso o profissional que fosse me tratar fosse do sexo feminino.
As feministas ferrenhas que me perdoem, mas quando a gente está doente e essa doença é depressão, isso é motivo. Eu poderia ter inventado que queria me tratar por alguém que tivesse uma árvore de jaca no quintal da casa ou que torcesse para o Internacional que, para mim, faria sentido.
- Temos o doutor Ricardo.
Hum. Um bom nome. Nome de rei. Não conhecia nenhum Ricardo que fosse um total imbecil. Acho que a moça percebeu o meu "hum..." ou eu mesma devo ter pronunciado em voz alta. Só isso explica o complemento da informação:
- Ele é um ótimo médico. Todos gostam muito dele.
Hum. Era hora de parar de mugir. Ele já estava eleito por ser o único do sexo masculino disponível. Portanto, nem tinha o que discutir. Era ele e pronto.
Lembro que na primeira consulta, o que me chamou a atenção foi um quadro na parede que, pode até não ser esse o desenho, mas hoje lembro como sendo de flores roxas e amarelas. No pé, uma assinatura com as iniciais do nome dele.
- Pinta?
- O quê?
- Esse quadro. Foi você quem pintou?
- Nao. Por quê?
- Tem as iniciais do teu nome.
Ele sorriu. Talvez nunca tivesse se dado conta da coincidência. E quando ele sorriu, vi que eu estava em ótimas mãos e estava fazendo a coisa certa. Era um sorriso genuíno. Acrescente a isso o fato de ser um homem com uma voz cativante, inteligente e - embora não fosse um bastião da beleza - se encaixava na definição de "médico gato" a qual eu dava sempre que alguém me perguntava "e ai, como é o teu psiquiatra?". Uma maneira criativa e sincera de afastar aquilo que eu entendia como "e ai, sua maluca emocionalmente instável, teu médico de louco é legal?"
Fiquei na clínica 29 dias. Poderia ter ficado menos tempo, mas confessei não estar pronta para enfrentar tudo de novo. Voltar para o lugar o qual eu chamava de 'lá fora". O acordo, proposto pelo médico com nome de rei, era que, quando eu estivesse pronta, eu lhe desse alta. E foi o que aconteceu.
Ele era diferente dos demais. Até no jeito em que segurava a caneta. Tinha uma bela caligrafia o que, em se tratando de médico, é tema de estudo de caso. Sabia ouvir. Falava pouco, mas o suficiente para que se percebesse que ele não era um médico comum.
E não era.
O nome completo e o CRM foram suficientes para que eu soubesse que o segredo de tanto carisma estava nas letras: ele era escritor. E isso fez toda diferença. Um escritor que lê. E quando falo "lê" não são apenas livros mas pessoas, sensações, o mundo a sua volta. Isso o faz diferente de todos os demais médicos psiquiatras.
Ele era um personagem sem ser.
E coloquei isso no papel. Quando voltei da clínica, no meu trabalho, não me deixavam fazer absolutamente nada. Parecia que depressão era contagiosa. Ou o que é pior: que qualquer 'talvez" pudesse desencadear reações de surtos só vivenciados por Hollywood. Preconceito.
Ao invés de ficar chateada (por muito tempo, porque, por pouco eu fiquei), eu fui fazer o que mais gostava: voltei a escrever. Passava as tardes escrevendo. Depois pesquisando sobre acessibilidade até fazer um departamento disso no meu local de trabalho.
Mas foi nesse período que nasceu o personagem principal do meu livro... ops, escritos. Um médico-escritor. Psiquiatra. Simpático e bem quisto por todos. Uma alma humana. E as semelhanças acabam ai.
A imaginação o tornou em alguém atormentado pelos seus limites entre o pessoal e o profissional, com um casamento em ruínas, pivô de seu maior dilema.
E no final, por que, diabos, escrever um livro?
Deixo para responder durante a jornada que, por aqui, será bastante longa.





E quando tu acha que a história já é top, encantadora, instigante e deliciosa de ler, ela ganha novos patamares, sobe alguns degraus e tu sente que o céu não é mais o limite! *-*
ResponderExcluirCler, tu não existe!!! Tô tri orgulhosa!!! <3
E há quem acredite que o blog morreu... Minha "avenger", tu é a prova viva que não. Luv ya e muito, mas muito, muitissmo obrigada por me acompanhar ao longo da jornada do livro, do(s) blog (s) dos inbox. (put a smile here).
ExcluirÓtima leitura.... Como sempre seus escritos são deliciosamente agradáveis de se ler. Continue sempre maninha. Adooooooooooooro!!! bjs. Luty.
ResponderExcluirQue surpresa boa, Luty, te ver por aqui. Muito boa mesmo. Obrigada, querida, do fundo do core!
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