Capitulo I - Inveja dos mortos


Crédito: Antranias / Pixabay - Public Domain


Ricardo nunca admitiria em voz alta o quanto admirava os pacientes que liam na antessala enquanto aguardavam o atendimento. Eram silenciosos, provavelmente com uma cultura acima do que classificam como mediano. Sendo ele escritor que, embora premiado não era conhecido, os livros os conectavam. Na esmagadora maioria das vezes seus pacientes amantes de literatura entravam e saiam do consultório sem sequer desconfiar que estiveram diante de um ótimo contista. Um dos melhores, premiado uma par de vezes nos últimos 12 meses.

Quando ao entrar no consultório via alguém lendo, sem perceber, abria um pequeno sorriso. Por vezes, secretamente, desejou ignorar os males que levou aquele paciente até ali e simplesmente falar de literatura. Qualquer tipo, de qualquer jeito. Se iludia, por alguns instantes, imaginando que uma boa conversa sobre livros poderia fazer o que muitos fármacos não conseguem.

Ao ouvir seu nome, Maria Clara fechou o livro e colocou cuidadosamente na enorme bolsa vermelha. Seus gestos eram delicados e ela parecia não ter pressa para entrar no consultório. E, se existe algo que Ricardo aprendera é que, quando isso acontece, seu paciente estava ali contra a vontade. 


- Veio sozinha?
- Sim. Deveria ter vindo com alguém?
- Não. A menos que quisesse. Entre.

Se o corpo fala, o de Maria Clara gritava. Entrar na sala de um psiquiatra a tornava um ser extraterreno, na sua preconceituosa e secreta definição. Sabia que, a partir daquele dia, teria que ser cuidadosa ao falar sobre o assunto com um colega de trabalho ou ao chegar em casa, depois de uma consulta, com ares de que absolutamente nada aconteceu naquele dia. 

Sentou em uma poltrona azul, em frente a uma mesa de vidro. Seu corpo franzino se intimidou com a gentileza do médico que cruzou as mãos e sorriu, gentilmente, em sua direção. Não o conhecia pessoalmente e, num primeiro momento, quase não conseguiu esconder a surpresa de ser atendida por alguém tão jovem e, desconcertantemente, tão bonito. Colocou a bolsa no colo, fechou as pernas o máximo que pode. Sua coluna estava ereta e as mãos... ah, sempre as mãos, colocavam os lisos fios de cabelos castanhos para trás da orelha. Não uma, nem duas, mas repetidas vezes. Seus olhos não encontrariam os do Ricardo, nem depois da primeira pergunta:

- Como posso te ajudar, Maria?
- Maria Clara, por favor.
- OK. Maria Clara, bonito nome - sua admiração era genuína. No meio de um sorriso, conseguia esconder o cansaço que enfrentava naquela que seria a última consulta do dia. 
- Eu não sei ao certo...

Ricardo expressou surpresa mas se manteve em silêncio. Era comum, por falta de confiança ou mesmo por não se sentirem a vontade, os pacientes terem a ilusão de que o psiquiatra poderia adivinhar seus anseios sem mesmo abrir a boca. Houve uma época em que ele mesmo pensou ter esse dom. Mas fora surpreendido tantas vezes pela diversidade de caminhos que a mente humana pode seguir que, depois de alguns anos de profissão, preferia que o paciente contasse o problema.

Começou reclamando de insônia, falta de apetite, falta de interesse pelas aulas de artesanato que começara há uns três meses. Disse também que costumava passar longas horas sentada, sozinha, na beira do rio próximo a sua casa. Silenciou antes de dizer o que pensava nesses momentos.

- E, no que você pensa quando está sozinha?
- Muitas coisas.
- Quer me contar algumas?
- São bobagens.
- Gosto de ouvir bobagens. Mas sei que o que tem para me contar é importante. Deixa que eu avalio se é bobagem ou não. Certamente não é.
- Eu sinto inveja.
- Inveja?
- Sim. Inveja dos mortos.
- O que eles têm melhor que você?
- Estão mortos. Não tem mais nada. O nada é tudo o que eles têm. O nada é tudo o que eu gostaria de ter agora. Nada.

Ricardo silenciou. A experiência de médico psiquiatra alertava que era uma paciente que deveria ter um cuidado maior, mas o cansaço humano o fazia se concentrar apenas nos sintomas e nas soluções farmacêuticas disponíveis no mercado. Vinha de dois plantões no hospital e de uma discussão sem sentido com aquela que, até o momento ele não sabia, mas que até o final de sua vida seria identificada como sua “primeira esposa”, de duas. Estava a beira de um divórcio e, quando o cérebro encontrava lacunas na fala da paciente, era só nisso que, egoisticamente pensava.


Já vejo minha mãe choramingando com pena da Sophia, dizendo que eu jamais vou encontrar uma mulher como ela. Sinceramente? Espero que ela tenha razão.

Maria Clara continuava falando, com espaços cada vez maiores entre uma reclamação e outra, até morrer em um silêncio esperado. 

- O que você está lendo?
- O quê? - Maria Clara foi surpreendida por uma pergunta fora do script normal de uma consulta normal. 
- Você estava lendo um livro quando eu chamei. O que você está lendo?
- O Alienista. Machado de Assis. 
- Bom livro. Um dos melhores. 

O médico retomou a postura profissional e decidiu abreviar a consulta. Iguais a ela, passaram quatro, só naquele dia. Sabia o que receitar, as doses inicialmente baixas, nova consulta em 20 dias. Simples. 
- Já faz psicoterapia?
- Não. É muito caro. Meu plano não cobre e… meu plano é ruim.
- Eu entendo. 

Ricardo se levantou e foi até um armário de vidro, trancado com uma chave estranha, como se nele tivesse a resposta para a vida, o universo e tudo mais. Tirou uma caixa pequena e não tirava os olhos dela enquanto falava.
- Essa é uma amostra grátis. É um medicamento moderno, com poucos efeitos colaterais e…
- É muito caro?

O médico, como profissional, odiava quando o paciente condicionava o seu tratamento a valores financeiros. Já era sabido que, para a saúde, todo investimento valia a pena, mas ele, sendo  um profissional liberal, sabia que mesmo para as suas necessidades básicas dependia da condição financeira de outras pessoas. Mediante uma crise iminente, não poderia se dar ao luxo de ser arrogante. Não diante de alguém que havia lhe procurado para pedir ajuda.

- É uma novidade no mercado. Acho que pode te ajudar muito mais do que outros medicamentos com preços acessíveis, mas tenho que considerar o custo do tratamento se não quiser que você abandone ele por questões financeiras. 

A moça sorriu de canto. Pela primeira vez alguém, de uma posição social acima da sua, reconhecia que a falta de dinheiro poderia ser um problema e usaria o plano B, de “Bolso vazio”. O sorriso foi discreto, mas não imperceptível ao médico. Mesmo cansado e não se esforçando com o deveria, estava cumprindo sua missão. Receitou algo mais em conta e marcou uma nova consulta, com um tempo maior. Queria compensar o descaso que só ele sabia que tinha em relação aquele atendimento. 

Assim foi por quase quatro meses. Até que, em uma das consultas, ela não aparceu. 

Maria Clara é um dos personagens do livro De Hoje Não Passa!, disponível no Wattpad. O destino da personagem pode ser lido no capítulo IV - Flores Roxas e Amarelas. A publicação dos capítulos flashbacks serão numeradas, porém sem periodicidade estabelecida.

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2 Responses to Capitulo I - Inveja dos mortos

  1. Maria Clara...hummmm... Maria Clara? E aí, pluft, caíram todas as fichas! O.O
    E adorei o plano B, de "bolso vazio"...huahuahuahua
    AMEI O FLASHBACK!!! Vai ter mais, né? *-*

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    1. Sim, sim, terão mais. Não tem como me desfazer dele agora. O bacana é que é uma ponte para o livro ou pode ser lido separadamente. Tem um monte de personagens que poderia ter sua pré-história como o pai dele, a mãe, o irmão, os funcionários da clínica, até a primeira mulher do cara merece uma pré-história. Se quiser, teria material ad infinitum :) Valeu a leitura e o comentário. <3

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