Archive for novembro 2015

#Ficaadica: Três livros para quem quer ser escritor

Foto: Cler Oliveira / Arquivo pessoal
Quando eu era adolescente minha avó tinha duas certezas na vida: a primeira de que eu seria uma escritora. A segunda: que eu me casaria com um médico. Talvez seja por isso que dizem que a única coisa certa na vida é a morte. Ela errou tão feio que, de onde ela estiver, espero que ela não esteja me observando porque seria muito constrangedor.

Mas de algum lugar ela tirava essas coisas. Quando eu tinha uns 5, 6 anos de idade e ganhava mesada, na minha lista de compras sempre havia caderno e caneta, mesmo antes de eu saber ler e escrever. Virei jornalista. Antes disso, passava as tardes escrevendo histórias. Não tinha técnica nem norte para isso, mas escrevia. Das dezenas de histórias, duas viram a luz do dia no Wattpad: Da Correnteza ao Rio - um texto de dois capítulos que eu nem sei a classificação literária - e De Hoje Não Passa!, uma novela cujo personagem principal é um médico (é... minha avó era batuta).

E foi para pessoas como eu, e talvez você, que um bando de escritores e estudiosos sobre o tema "Escrita Criativa" mostram o caminho das pedras para quem quer se aventurar no mundo das letras e mercado editorial.

Antes de me interessar, de verdade, pelo tema eu nem fazia ideia o que era oficina literária, escrita criativa e afins. Conhecer esses conceitos não me faz escrever como Edgar Allan Poe, mas, aos poucos, me ajuda a identificar aspectos no meu texto, no meu trabalho e possibilita a evolução.

Nessa vibe, selecionei três bastiões da literatura brasileira (poderia dizer "gaúcha", mas é um bairrismo desnecessário) que se dedicam ao ensino da Escrita Criativa, seja por cursos, oficinas ou em matérias nas faculdades que lecionam. Pessoas que, generosamente, dividem essa experiência com quem almeja fazer parte do time, tudo de maneira simples e fácil de entender.

1. Para ser escritor - Charles Kiefer 
(Ed. Leya, 2010 - 160p)

"Talvez não seja possível ensinar a escrever mas é plenamente possível ensinar a aprender a escrever"

Esse livro eu devo ter lido umas três vezes até ter a honra de ganhar um exemplar das mãos do próprio autor (conto a história aqui. Acreditem, foi demais!). De acordo com o próprio Kiefer, o livro é uma compilação de parte da experiência de duas décadas a frente da Oficina Literária Charles Kiefer, uma das mais respeitadas do país. Com requinte e bom humor, o escritor traz, em 48 capítulos curtos, suas definições. pequenos e grandes detalhes que não podem ser ignorados na hora em que alguém decide se lançar nesse universo. Destaque para o capítulo no qual ele disserta sobre o que é má literatura.

2. Escreva! Guia de Escrita Criativa - Pedro Gonzaga e Jane Tutikian  
(Ed. Leitura XXI, 2015 - 180 páginas)

"(...)O mundo precisa de histórias, mais o que nunca é necessário que as experiências individuais sejam devolvidas ao coletivo, reelaboradas na forma de texto, e não apenas de imagens, cada vez mais fragmentadas e desconexas nas grandes redes" 

Um resultado objetivo dos mais de dez anos de oficina literária ministrada pelos escritores. De maneira bastante prática a dupla disserta sobre temas comuns a quem quer sentar e escrever, sobretudo conto e romance. Conceitos, as funções do narrador, a construção das personagens, o tempo, o espaço e a evolução de uma boa história estão dispostos de maneira simples, direta, para ser consultado sempre que você pensar em transpor qualquer história que está na sua cabeça para o papel.

Livros: Um guia para autores - Paulo Tedesco (Ed. Buqui, 2015 - 142 páginas)

"(...) Sair de nossa cabeça e desnudar-se é qual dividir o público espaço com outros que também se desnudaram. Para isso, nada melhor do que um bom projeto editorial, com visão e consciência sobre o que é e a quem se destina seu livro."

Esse é um xodó por dois motivos: pela situação na qual ganhei e por ser uma publicação que se propõe a levar as obras a um outro nível. Você escreve? OK. Então, conheça todas as possibilidades que seus escritos podem ter, desde o aprimoramento do texto até o grande duelo de titãs que é o mercado editorial. E nessa o Paulo Tedesco sai na frente já que sabe o caminho por fazer parte dele. Além de professor universitário e escritor premiado, coloca no currículo o empreendedorismo editorial por meio da Buqui, ditora de autopublicação. Depois que se conhece o livro é suicídio artístico pensar em se lançar ao mercado sem ele. 


Bônus - Para quem quer escrever no Wattpad


Para escritores do Wattpad - Ana Pierce (clique aqui para acessar)

"No mundo da escrita, ser perfecionista significa querer que a história que se está a escrever seja feita da melhor forma possível, sem o mínimo erro gramatical ou falha no enredo. O problema está no facto de isso não ser possível. Nem mesmo as melhores obras chegam ao ponto de serem consideradas "perfeitas". A perfeição está na cabeça de quem a procura (...)"

A portuguesa Ana Pierce, assim como centenas de outros escritores do Wattpad, resolveu um dia sentar e escrever um guia para escritores da plataforma. O que a diferencia dos demais é que, em um texto envolvente e direto, ela discorre não apenas sobre a dor e a delícia de se ter uma obra online mas também sobre questões básicas do texto como personagens, histórias, narradores, clichés, público-alvo e etc. Tudo voltado para quem faz parte dessa rede social, mas não exclusivamente para eles. Uma obra que os milhares de usuários do Wattpad deveriam ler antes de entrarem no Wattpad. 

Posted in , | Leave a comment

#Ficaadica: Aplicativo para organizar a vida de quem ama livros

Imagem Pixabay / Unsplash - CC0 Public Domain



Já que o assunto por aqui envolve livros, sejamos práticos. Eu não tenho milhares de livros, mas os que tenho me são muito especiais. Alguns são autografados, outros, personificação afetiva de bons momentos. O grande problema em ter algumas dezenas de livros é que sou do signo de Peixes. Reza a lenda que nós, piscianos, somos seres absurdamente desorganizados e, o que é pior, constragedoramente esquecidos. Alguém já disse que somos versões desplugadas de um ser humano normal. 

Mas, é para gente como nós - e para todos os demais que querem manter as coisas no controle - que rola nas lojas de apps, algumas traquitandas para manter a coisa toda organizada. É o caso do Codex, um aplicativo para catalogar e organizar (mesmo) a sua coleção de livros. 

Ele é um aplicativo lusitano, condição que, aqui no Brasil, o coloca na frente de dezenas de outros americanos com o mesmo objetivo. Resolvida a questão do idioma, vamos às funcionalidades.

Cataloga pelo ISBN
O ISBN (International Standard Book Number) é o número que identifica a edição e possibilita o código de barras do livro. Para facilitar podemos dizer que é o DNA da edição. Isso porque, um único número guarda a informação de título, autor, editora, país de origem, o número da edição, até mesmo se é eletrônico ou não. Isso quer dizer que você pode mirar o leitor de código de barras (que você faz o download na primeira vez que usar essa função) e ele busca todas as informações automaticamente.




Detalhe: se você tiver instalado o app em tablet, nos quais as câmeras não tiver foco, catalogar por código de barras é impossível. Para isso tem a opção de digitar os 13 números (se for lançado depois de 2007) ou os 10 (se o livro foi editado antes de 2007) e voilá! Só correr para o abraço.

Cataloga por nome da obra
Se você não quiser usar o código de barras pode catalogar as obras da maneira mais óbvia: digitando no nome do livro. Se ele já estiver previamente cadastrado será a coisa mais linda do mundo. Senão, a mágica não acontece e você vai ter que inserir os dados manualmente. Trabalho de preso porque o catálogo é bem detalhado. 

Organiza pelo maior número de critérios possível
Quando você insere os dados ele já se auto organiza por livro, autor, editora e categoria. Te dá a oportunidade de costumizar os critérios Coleção e prateleira. Essa é bacana. Eu por exemplo, fiz uma prateleira de Gaúchos, Clássicos, Escrita Criativa, Psicologia etc. Fica mais fácil de achar qualquer exemplar. 

Além disso te permite colocar os livros na categoria de favoritos, autografados, emprestados (inclusive estipulando data de devolução e com notificação para você lembrar de pedir de volta), da mesma forma que você indica os que pegou emprestado. 

Mas nem tudo são flores 

Faltam algumas funcionalidades básicas, na minha humilde opinião, como por exemplo, um sistema de login para que possamos armazenar os dados e abrí-los em qualquer dispositivo que tenha o aplicativo instalado. Para sanar parte dessa falha, é possível exportar os dados e importar em outro dispositivo, mas, tu tens que concordar que é uma baita mão. 

Outra funcionalidade básica é a procura por autor. Simples, porém, necessária. Se fosse possível pesquisarmos por autor poderíamos colocar, de uma única tacada, vários livros. Por exemplo: eu gosto muito do Irvin D. Yalon e tenho vários livros dele. Embora ele seja monotema, gosto da maneira como, pacientemente, nos conta suas experiências de psicoterapeuta. Seria mais prático (e bacana) achar todos os livros e marcar os que tenho, os que quero, os que emprestei, os que peguei emprestado, do que colocar um por um, por nome da obra. 

Além disso, a interface do aplicativo não é lá muito bonita, embora, bastante prática. Acredito que, com o tempo, o design fique mais atraente, mas por enquanto, cumpre bem o que se propõe. 

Quem quiser instalar, basta ir na loja da Google Play, pois, até onde sei, só existe para Android. 

Especificações
Nome do Aplicativo: Codex - Link para baixar 
Desenvolvedor: Emilio Simões
Categoria: Livros e Referências
Sistema operacional: Android
Preço: Gratuito
Minha avalição (1-5) 4 estrelas

Posted in | Leave a comment

Vamos falar sobre psicofobia

Foto de Alain Audet de Saint-David, sob CC0 Public Domain


Dr. Ricardo,

Desculpe utilizar o meio escrito para conversar contigo. Sei que és um homem ocupado. Acho que,  se não encontrares tempo para ler, considerando os longos trajetos que fazes entre um trabalho e outro, podes ler enquanto dirige. O código de trânsito não fala absolutamente nada sobre isso ser proibido, então, é uma ideia.

Vejo que parte dos teus pacientes estão recebendo alta e, ao contrário do que seria óbvio, não me sinto a vontade de estar me adaptando à medicação. Sei que terei que ir embora também quando, na tua concepção, isso acontecer de fato. Porém não me sinto preparada.

Eu era uma pessoa que levava uma vida normal, cercada de pessoas que tinham como principal habilidade esconder suas dores e frustrações. Quando vim para a clínica, não falei absolutamente nada pra ninguém. Nem minha melhor amiga, Carol, soube. Minha mãe, quando vem me visitar, diz que diversas pessoas a abordam querendo notícias minhas. Pessoas que não me veem no Facebook. No meu emprego, não falei para nenhum colega. As únicas pessoas que ficaram sabendo são as que, verdadeiramente, deveriam saber: a menina do Recursos Humanos e o pessoal que gerencia o plano de saúde. Só.

Isso porque tenho vergonha de estar aqui. Tenho vergonha de não conseguir fingir ter a habilidade de lidar com o que lá fora chamam de adversidade do dia a dia e aqui tu convencionou chamar de "doença".

Na sociedade na qual eu vivo, se a pessoa faz terapia é desajustada. Se vai a um psiquiatra, é louca e, se ficou internada em uma clínica, digna de ser evitada. Alguém completamente inconstante, insegura, frágil, inconsequente e mentalmente não-confiável.

Não é coisa da minha imaginação. Foi exatamente dessa forma que eu fui vista quando vim parar aqui da primeira vez. Se antes eu trabalhava cerca de dez horas por dia, dopada por doses letais de Rivotril, quando voltei, meus colegas e chefes me ignoraram. Tinham medo de mim. Medo de não saber lidar com a minha "doença", sendo que a única que deveria fazer isso era eu.

Eu passava longas horas do meu dia sem fazer absolutamente nada. As pessoas se sentiam na obrigação de compensar a pena que sentiam de mim com sorrisos falsos. Eu não era contrariada. Não era incluída. Não era parte de nada. Não sabiam o que fazer com a "louca que voltou da clínica", então, não faziam nada. Fui jogada no meio do nada e isso não foi legal.

Me sinto melhor. Bem melhor do que quando entrei aqui. Tive a sorte de ter você como médico novamente. Uma sorte que eu mesma busquei. Sabia que, no mundo todo, talvez tu serias a única pessoa que me entenderia. Não errei.
(Trecho do Livro "De hoje não passa!" - Capítulo IX - A Carta de Elisa)


O quanto há de verdade nessas linhas
(Ou o preconceito relacionado a tratamento psiquiátricos)

Post da Associação Brasileira de Psiquiatria - Psicofobia é crime. 


Quando você já viveu algo, fica mais fácil falar. Nada impede que você escreva sobre viagens no espaço mesmo que nunca tenha entrado em um avião. Mas ter vivido o lugar, sentido na pele o que é cada palavra que você escreve torna a coisa toda absurdamente diferente.

Essa carta que está no livro de fato existiu. Parte dela. O primeiro parágrafo. Lembro que, quando eu estava na clínica eu escrevi para o Ricardo "real", mas costumava conversar muito com ela sobre o medo que eu tinha do lugar que denominei como "lá fora". Ele, num gesto de generosidade, me disse: "então, quando tu estiveres preparada, tu é quem vai me dar alta". E foi o que aconteceu. 

Passei meus dias imaginando as pessoas me julgando, com códigos furtivos, perto da mesa do café para falar que eu havia sido internada.

De fato, não errei. E, pela primeira vez, estar certa me deixou muito triste.

Muitos colegas de trabalho me receberam muito bem. Porém, parte deles- e era infelizmente a maioria - me olhava de canto. Alguns, com curiosidade. Outros, tentando me evitar, da mesma forma que se evita andar com os losers do colégio para que ninguém ache que você é mais um deles.

Isso tinha um nome, mas eu não sabia. Ironicamente, na mesma época em que eu estava sofrendo por isso, tramitava um movimento legal rolando no Senado que transformava esse preconceito velado - ou escancarado - aliado ao meu mal-estar em uma única palavra: PSICOFOBIA. E, a partir de 2012, começava a ser visto não como "simples discriminação", mas como algo passível de ser considerado crime.

Desenhando:



Em 2014 o senador Paulo Davim (PV-RN) deu seus dois centavos ao projeto de Lei do Senado que altera o Código Civil Brasileiro ao apresentar uma emenda de sua autoria sobre preconceito praticados contra a pessoa com transtornos ou deficiência mental. que tramita no Senado. embora ainda tramite por lá, a medida que o tempo passa, questões contra a psicofobia ganha mais força na nossa sociedade.
“Se alguém é acometido por transtorno mental e tem indicação de buscar auxílio profissional de psiquiatra ou psicólogo, sofre toda sorte de discriminação, o que afasta ou retarda seu contato com o sistema de saúde. O resultado de tudo isso é o reforço do preconceito contra as pessoas com doença mental e a deterioração de seu quadro clínico” (Paulo Davim)

Famosos, encorajados pela Associação Brasileira de Psiquiatria, tentam sensibilizar a sociedade por meio da campanha contra a psicofobia, um mal que vaga por entre nós silencioso, mas que fere e mata.


O livro fala sobre isso também. A personagem Elisa absorveu todos os meus medos, dores, frustrações daquela época. O preconceito que é tão forte que transborda para dentro de você. Você se torna um deles.

No capítulo III - Incondicionalmente, Elisa mostra o quanto esse preconceito já estava em seus poros e já inunda sua definição de tratamento, o que, obviamente, só a prejudica.


- Você não é obrigada a nada, mas antes de negar qualquer coisa, deve saber que depressão é doença. É isso que você tem que ter bem claro na sua cabeça. E você é uma pessoa que, no momento, está doente. Eu sou médico. Minha função é te ajudar.

- Se eu quiser ajuda. Mas eu não quero. Estou achando tudo isso uma perda de tempo.

- O que é uma perda de tempo?

- Eu estar aqui, tirando o lugar de uma outra pessoa que realmente quer se tratar. Estar aqui pela segunda vez, em menos de um ano, ser taxada de depressiva, tomar remédios. Me diz, pra quê? É isso que eu não entendo - ela voltou a fitar os olhos do médico carregando o mesmo ar de serenidade - PRA QUÊ?

- Para que você se sinta bem.



(Trecho do livro "De hoje não passa!" - Capitulo III - Incondicionalmente)

A psicofobia existe. Foi ela que fez que eu escondesse por tanto tempo esse livro e a motivação para escrevê-lo. Hoje, dizer que não me importo com as reações ou que não preocupo com elas é faltar com a verdade. Sim, eu me importo. Sim, eu me preocupo e, o que é pior: sim, esse preconceito, quando manifestado, me atinge. Mas, no meu caso, tentar virar esse jogo não é uma questão altruísta e social. É uma questão de tentar me libertar disso. Dessa forma de ver o mundo e a mim mesma.

O trabalho do Ricardo "real", o médico que me tratou na clínica, é lindo. Me discriminando, discrimina-se o trabalho dele também. E esse ciclo de injustiça e sofrimento é tão grande que quem discrimina não consegue enxergar as verdadeiras consequências.

Escrever uma novela não ajuda em nada essa luta, mas quem sabe, num futuro próximo, as artes se rebelem e façam um levante, todas juntas, no mesmo dia, contra a psicofobia, ãh?

Posted in , , | 2 Comments

O dia em que conheci Charles Kiefer

(ou “A vida foi linda e justa e, nesse momento, eu não soube o que fazer")


Em outubro deste ano, nos panfletos com a programação e no enorme banner localizado no fundo do palco da Feira do Livro da minha cidade, logo após a palavra “patrono” se lia o nome dele: Charles Kiefer. Eu vibrei como presidente de torcida organizada em época de campeonato. Fiquei feliz. De verdade. Mas sabia, de antemão, que eu não sou do tipo de pessoa “casa cheia”, daquelas que mentalmente gritariam “Charles Kiefer, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver!”. E nesse ponto dou graças a Deus. Por quê? Porque sou tímida.

Às vezes penso que comecei a escrever por esse motivo. As pessoas não acreditam mas eu sou tímida. Se precisar, falo para plateias, sem muita delonga, exponho minhas opiniões, numa boa, afinal, é isso que mantém parte da minha sanidade mental, mas sou tímida. Infantilmente tímida. Do tipo que fica naquela do "falo com a pessoa ou não falo?" e, quando decido falar, ela já está, no mínimo, a uns 12 quilômetros dali. Quando vi o Kiefer pela primeira vez não foi diferente.

Posted in , | 2 Comments

Por que escrever um livro?



Bom, eu nunca me atreveria a dizer que tenho um livro. Mesmo que o Wattpad, plataforma na qual publiquei a história, chame os trabalhos de "obras" eu jamais me atreveria a chamar os meus escritos dessa forma. Não ainda.  Então, eu tenho escritos, que podem ser lidos aqui

Escrever vai além de construir frases que contem um história. Escrever requer toda uma bagagem, uma preparação e, durante o processo, um aprimoramento que descobri - a duras penas - que não é nada fácil. 

Eu sempre escrevi histórias. Meu pai tinha uma máquina de escrever, a Olivetti. Uma das melhores. Quando ele morreu aos 37 anos, eu, aos 11, herdei a máquina. Ninguém disse que era minha, mas como eu era a única que despertou um carinho por ela, foi uma seleção natural. 

Sempre tive diários, embora só escrevesse quando estava prestes a iniciar uma "operação verão", "operação fulano", com planos mirabolantes para mudar radicalmente meu visual e assim conquistar o mundo. Ou deprimida. Sempre escrevi entrevistas fictícias mesmo antes de ser jornalista. Histórias curtas e inacabadas. O Wattpad apenas me ajudou a perder o medo de dizer alguma coisa sobre essas coisas todas. 

Tá,  mas por que escrever um livro?

Em 2012, depois de vencer a vergonha social, fui para uma clínica. O diagnóstico: depressão. Não era algo do qual eu deveria me envergonhar, afinal, é uma doença que pode acometer qualquer pessoa, certo? Mais ou menos. Até a parte da "doença" e "qualquer pessoa", OK. O problema é o preconceito e aliado ao desconhecimento das pessoas sobre o assunto. Isso realmente te incapacita. Te torna um ser com três cabeças. Uma aberração. 

Lembro que quando me foi recomendado a clínica, tinha medo de contar pra minha mãe. Pensava que ela não iria entender o que era depressão. Que iria se culpar ou, o que é pior, me julgar. Pensei que seria uma desculpa para que ela dissesse que tudo o que eu fiz foi "inventar moda" e que não esperava nada de mim. Mas eu estava enganada. E pela primeira vez, estar errada me fez feliz. 

Ela foi a primeira a achar normal eu ir para uma clínica me tratar. Depois ela me contou que eu estava estranhamente insuportável e, a partir daquelas percepções, acreditou que eu estivesse verdadeiramente doente. Ela achou normal. Eu não. 

Mesmo assim, resolvi ir. Afinal, sendo bem sincera, se quisesse tentar sobreviver (e o ser humano é um sobrevivente crônico) eu teria que ir para lá. Quando eu liguei para a clínica já estava disposta a desistir caso o profissional que fosse me tratar fosse do sexo feminino. 

As feministas ferrenhas que me perdoem, mas quando a gente está doente e essa doença é depressão, isso é motivo. Eu poderia ter inventado que queria me tratar por alguém que tivesse uma árvore de jaca no quintal da casa ou que torcesse para o Internacional que, para mim, faria sentido. 

- Temos o doutor Ricardo. 

Hum. Um bom nome. Nome de rei. Não conhecia nenhum Ricardo que fosse um total imbecil. Acho que a moça percebeu o meu "hum..." ou eu mesma devo ter pronunciado em voz alta. Só isso explica o complemento da informação:

- Ele é um ótimo médico. Todos gostam muito dele. 

Hum. Era hora de parar de mugir. Ele já estava eleito por ser o único do sexo masculino disponível. Portanto, nem tinha o que discutir. Era ele e pronto. 

Lembro que na primeira consulta, o que me chamou a atenção foi um quadro na parede que, pode até não ser esse o desenho, mas hoje lembro como sendo de flores roxas e amarelas. No pé, uma assinatura com as iniciais do nome dele.

- Pinta?
- O quê?
- Esse quadro.  Foi você quem pintou?
- Nao. Por quê?
- Tem as iniciais do teu nome. 

Ele sorriu. Talvez nunca tivesse se dado conta da coincidência. E quando ele sorriu, vi que eu estava em ótimas mãos e estava fazendo a coisa certa. Era um sorriso genuíno. Acrescente a isso o fato de ser um homem com uma voz cativante, inteligente e - embora não fosse um bastião da beleza - se encaixava na definição de "médico gato" a qual eu dava sempre que alguém me perguntava "e ai, como é o teu psiquiatra?". Uma maneira criativa e sincera de afastar aquilo que eu entendia como "e ai, sua maluca emocionalmente instável, teu médico de louco é legal?"

Fiquei na clínica 29 dias. Poderia ter ficado menos tempo, mas confessei não estar pronta para enfrentar tudo de novo. Voltar para o lugar o qual eu chamava de 'lá fora". O acordo, proposto pelo médico com nome de rei, era que, quando eu estivesse pronta, eu lhe desse alta. E foi o que aconteceu.

Ele era diferente dos demais. Até no jeito em que segurava a caneta. Tinha uma bela caligrafia o que, em se tratando de médico, é tema de estudo de caso. Sabia ouvir. Falava pouco, mas o suficiente para que se percebesse que ele não era um médico comum. 

E não era. 

O nome completo e o CRM foram suficientes para que eu soubesse que o segredo de tanto carisma estava nas letras: ele era escritor. E isso fez toda diferença. Um escritor que lê. E quando falo "lê" não são apenas livros mas pessoas, sensações, o mundo a sua volta. Isso o faz diferente de todos os demais médicos psiquiatras. 

Ele era um personagem sem ser. 

E coloquei isso no papel. Quando voltei da clínica, no meu trabalho, não me deixavam fazer absolutamente nada. Parecia que depressão era contagiosa. Ou o que é pior: que qualquer 'talvez" pudesse desencadear reações de surtos só vivenciados por Hollywood. Preconceito.

Ao invés de ficar chateada (por muito tempo, porque, por pouco eu fiquei), eu fui fazer o que mais gostava: voltei a escrever. Passava as tardes escrevendo. Depois pesquisando sobre acessibilidade até fazer um departamento disso no meu local de trabalho. 

Mas foi nesse período que nasceu o personagem principal do meu livro... ops, escritos. Um médico-escritor. Psiquiatra. Simpático e bem quisto por todos. Uma alma humana. E as semelhanças acabam ai. 

A imaginação o tornou em alguém atormentado pelos seus limites entre o pessoal e o profissional, com um casamento em ruínas, pivô de seu maior dilema. 

E no final, por que, diabos, escrever um livro?

Deixo para responder durante a jornada que, por aqui, será bastante longa. 

Posted in | 4 Comments
Cler Oliveira. Tecnologia do Blogger.

Pesquise aqui

Swedish Greys - a WordPress theme from Nordic Themepark. Converted by LiteThemes.com.